Existe um medo que todo candidato compartilha: abrir a proposta de redação e não lembrar de nenhuma citação, nenhum dado, nenhuma obra que combine com o tema. É para isso que servem os repertórios coringas para redação — referências amplas o bastante para se encaixar em praticamente qualquer proposta do Inep.

Só que ter a referência na cabeça não garante nota. O que pontua é o uso e é aí que entra a Competência 3. Neste guia você vai ver 9 referências versáteis, a fórmula para aplicá-las no parágrafo e os erros que derrubam a nota.

O que são repertórios coringas para redação?

Repertório coringa é toda referência sociocultural ampla o suficiente para sustentar argumentos em vários eixos temáticos: cidadania, saúde, educação, tecnologia, meio ambiente, cultura.

Enquanto o repertório específico (um dado sobre desmatamento, por exemplo) só funciona em um tema, o coringa é uma chave-mestra: a Constituição Federal serve tanto para saúde mental quanto para mobilidade urbana — desde que a conexão seja bem construída.

Se você ainda está montando essa base, vale começar pelo guia Repertório sociocultural: o que é e como usar na redação e depois voltar para cá.

Competência 3 da redação do ENEM: onde o repertório coringa vira ponto

Muita gente acha que repertório é assunto exclusivo da Competência 2. Entender essa divisão muda a forma como você escreve.

Na Competência 2, o Inep avalia se a referência é legitimada (de fonte reconhecida) e produtiva (a serviço da discussão). É o critério de entrada.

Na Competência 3 da redação do ENEM, o critério é outro: selecionar, relacionar, organizar e interpretar informações em defesa de um ponto de vista. Aqui o corretor avalia o seu projeto de texto — se as ideias progridem e se nenhuma fica solta pelo caminho.

Traduzindo: citar Bauman rende algo na C2 e nada na C3. O que vale na C3 é o que vem depois da citação — a explicação, a conexão com o problema e a consequência extraída dali. Veja a lógica completa em Competência 3 do ENEM: como organizar seu texto.

9 repertórios coringas para redação que servem para qualquer tema

Guarde três referências de cada eixo: cobre quase todos os temas já cobrados pelo Inep.

Eixo 1 — Estado, direitos e cidadania

1. Constituição Federal de 1988 (artigo 6º). Lista os direitos sociais de todo brasileiro: educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, lazer, segurança e previdência. Serve para qualquer tema em que um grupo esteja com um direito negado.

2. Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948). Afirma a dignidade e a igualdade de todos os seres humanos. Coringa clássico para exclusão, preconceito, violência e invisibilidade social.

3. “O Contrato Social”, de Jean-Jacques Rousseau. O Estado nasce de um pacto coletivo e existe para garantir o bem comum. Perfeito para denunciar omissão estatal em qualquer área.

Eixo 2 — Sociedade, cultura e comportamento

4. Modernidade líquida, de Zygmunt Bauman. Vínculos, instituições e certezas se tornaram frágeis e passageiros. Funciona em tecnologia, consumo, relações e saúde mental. Atenção: é o repertório mais usado do país, então só rende se você explicar a relação com o tema.

5. Banalidade do mal, de Hannah Arendt. Grandes injustiças se sustentam na indiferença e na falta de reflexão das pessoas comuns. Excelente para temas em que a sociedade assiste ao problema sem reagir.

6. “Por uma outra globalização”, de Milton Santos. O geógrafo mostra como a globalização produz uma cidadania mutilada, em que o acesso a bens e serviços depende do território onde se vive. Ouro para desigualdade, exclusão digital e mobilidade urbana.

Eixo 3 — Brasil, dados e produções culturais

7. “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus. O diário da autora, moradora de uma favela paulistana, expõe fome, desigualdade e invisibilidade social por uma voz brasileira e legitimada.

8. “Ilha das Flores” (Jorge Furtado, 1989). O curta denuncia, com ironia, como a lógica do consumo hierarquiza vidas humanas. Rende paralelos fortes em temas de desigualdade, trabalho e meio ambiente.

9. Dados oficiais (IBGE, Ipea, ONU) e a Agenda 2030. Os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável cobrem educação, saúde, igualdade de gênero e cidades sustentáveis — e ainda embasam a proposta de intervenção. Ao citar dados, prefira afirmar a tendência a arriscar um número exato: dado errado derruba a credibilidade do texto.

Quer ampliar a lista? Veja as 10 citações filosóficas para usar em qualquer tema de redação e consulte o Dicionário de Repertórios, que organiza referências por eixo temático.

A fórmula de 3 movimentos para aplicar o coringa na Competência 3

Repertório solto não pontua. Use sempre esta sequência dentro do parágrafo de desenvolvimento:

  1. Apresente a referência com nome e fonte (autor, obra, lei, instituição).
  2. Explique a ideia em uma frase, provando que você entende o que citou.
  3. Aprofunde: mostre a causa estrutural do problema e a consequência concreta para as vítimas.

Veja o coringa nº 3 aplicado a um tema sobre acesso à saúde mental:

Jean-Jacques Rousseau, em “O Contrato Social”, defende que o Estado nasce de um pacto coletivo cuja função é assegurar o bem-estar de todos. Sob essa ótica, a escassez de atendimento psicológico na rede pública representa a quebra desse acordo, o que empurra parcela expressiva da população para o adoecimento silencioso e o abandono do tratamento.

Repare na proporção: a referência ocupa uma linha, o aprofundamento ocupa duas. É exatamente isso que a Competência 3 recompensa. Para amarrar as ideias com fluidez entre um movimento e outro, revise a lista de conectivos para redação e a estrutura ideal dos parágrafos.

3 erros que derrubam a nota na Competência 3

Citar sem explicar: Escrever “como afirma Bauman” e seguir adiante não prova repertório nenhum — e deixa uma lacuna argumentativa evidente para o corretor.

Forçar a barra: Se a conexão entre a referência e o tema exige três acrobacias, troque o repertório: além de não pontuar, ele aumenta o risco de fugir do tema.

Terminar o parágrafo no ar: Todo desenvolvimento precisa fechar o raciocínio, sem deixar o leitor perguntando “e daí?”. Ideia solta é o desvio mais comum da C3.

Como montar seu banco de repertórios coringas

A regra é simples: 9 referências bem dominadas valem mais que 40 decoradas pela metade. Faça uma ficha para cada uma (o que é, quem assina, qual ideia defende, que temas combinam) e treine parágrafos com temas diferentes usando o mesmo coringa até a conexão sair automática.

Para ver isso funcionando em textos reais, analise as 5 redações nota 1000 e observe onde cada autor posicionou a referência dentro do parágrafo.

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Perguntas frequentes

O que são repertórios coringas para redação?

São referências socioculturais amplas — leis, obras, autores e dados oficiais — aplicáveis a temas de eixos diferentes. Elas garantem que você tenha o que escrever mesmo diante de uma proposta desconhecida, desde que sejam conectadas ao tema.

O que é a Competência 3 da redação do ENEM?

É o critério que avalia se você seleciona, relaciona, organiza e interpreta informações em defesa de um ponto de vista. Na prática, mede o projeto de texto: se as ideias progridem com lógica e se cada argumento é aprofundado.

Repertório coringa pontua na Competência 2 ou na Competência 3?

Nas duas. A Competência 2 avalia se a referência é legitimada e produtiva; a Competência 3 avalia o que você faz com ela — explicação, conexão e consequência. Sem esse desenvolvimento, o repertório rende bem menos.

Como usar repertório coringa sem fugir do tema?

Adapte sempre. Apresente a referência, explique a ideia em uma frase e mostre como ela ilumina o problema daquela proposta específica. Se a ligação exigir muito esforço, troque de coringa: repertório forçado aproxima o texto do tangenciamento.

Quantos repertórios coringas preciso levar para a prova?

De nove a doze referências bem dominadas costumam bastar. Distribua-as entre eixos diferentes (direitos, sociedade, cultura, dados) e treine aplicá-las em temas variados até a conexão sair natural.

Qual a diferença entre repertório coringa e frase pronta?

O repertório é a referência em si; a frase pronta é a estrutura que organiza o raciocínio ao redor dela. Os dois se completam: o coringa dá o conteúdo, o molde de frase garante o aprofundamento exigido pela Competência 3.

Como aprofundar um argumento na Competência 3?

Explique a causa estrutural do problema, mostre a consequência concreta para quem sofre com ele e feche o parágrafo com uma síntese crítica. Encadear causa, efeito e crítica é o que separa o argumento raso do argumento nota 1000.