Para corrigir uma redação do ENEM é atribuir uma nota de 0 a 200 em cada uma das cinco competências da matriz do INEP e justificar cada nota para o aluno. O trabalho combina leitura técnica, uso do espelho de correção e uma devolutiva que o estudante consiga aplicar no texto seguinte.
Saber como corrigir uma redação com critério economiza horas do professor e muda o resultado do aluno. Neste guia você vai ver o passo a passo de leitura, o que observar em cada competência, como registrar o desvio e como padronizar a correção quando a turma é grande.
Quais são as etapas?
Para corrigir uma redação do Enem, siga esta hierarquia: triagem de nota zero → Competência 1 → Competência 2 → Competência 3 → Competência 4 → Competência 5 → justificativa da nota → reescrita. Não comece procurando vírgulas erradas. Primeiro, confirme se o texto pode ser avaliado; depois, analise cada competência pelos critérios específicos e aplique o nível mais baixo sustentado pelas evidências encontradas.
| Etapa | O que avaliar? |
| Triagem | Se existe alguma situação que leva à nota zero |
| Competência 1 | Estrutura sintática e desvios |
| Competência 2 | Tema, tipo textual e repertório |
| Competência 3 | Projeto de texto e progressão argumentativa |
| Competência 4 | Articulação, conectivos e retomadas |
| Competência 5 | Proposta de intervenção |
| Devolutiva | O que o aluno acertou, o que precisa corrigir e como reescrever |
Para acompanhar o processo na prática, assista ao vídeo do Profinho “Como ser um BOM CORRETOR do ENEM”.
O que deve ser verificado antes das cinco competências?
Antes de analisar gramática, repertório ou argumentação, o professor deve aplicar o Filtro de Entrada e verificar se existe alguma situação que leve à nota zero.
Essa triagem evita que o corretor gaste tempo avaliando um texto cuja correção deveria ser interrompida antes da análise das competências.
O que são as Formas Elementares de Anulação?
As Formas Elementares de Anulação, chamadas de FEA, são ocorrências básicas que impedem a validação da produção como uma redação completa.
Entre os sinais que precisam ser observados estão:
- desenho ou sinal gráfico sem função textual;
- assinatura, rubrica ou identificação indevida;
- texto predominantemente escrito em outro idioma;
- produção com sete linhas ou menos;
- ausência de texto verbal válido;
- escrita impossível de ser compreendida.
O professor deve analisar essas ocorrências conforme a grade de correção vigente. A nomenclatura técnica é importante porque a justificativa não pode ser apenas “a redação está errada”: é preciso identificar o motivo específico da anulação.
Quando a cópia pode zerar a redação?
A cópia leva à nota zero quando, após a retirada das linhas copiadas dos textos motivadores ou do caderno de questões, restam sete linhas ou menos de produção própria.
O professor deve diferenciar três situações:
| Situação | Como identificar |
| Aproveitamento da coletânea | O aluno usa uma informação e acrescenta análise própria |
| Cópia parcial | Há trechos reproduzidos, mas ainda existe produção autoral suficiente |
| Cópia que anula o texto | Depois do desconto, restam sete linhas ou menos de autoria própria |
Usar uma informação dos textos motivadores não é automaticamente proibido. O problema está em reproduzir o conteúdo sem elaboração.
Qual é a diferença entre fuga ao tema e tangenciamento?
Na fuga total, o aluno escreve sobre outro assunto. No tangenciamento, ele permanece próximo do assunto geral, mas não desenvolve o recorte completo solicitado pela banca.
Considere o tema:
Caminhos para combater o etarismo no Brasil.
Haveria fuga total se o aluno escrevesse integralmente sobre sustentabilidade, sem qualquer relação com etarismo.
Haveria tangenciamento se ele falasse apenas sobre pessoas idosas, sem discutir o preconceito etário ou os caminhos para combatê-lo.
Essa diferença é decisiva. A fuga total zera a redação. Já o tangenciamento leva o texto para uma faixa muito baixa na Competência 2 e limita também o desempenho nas Competências 3 e 5.
O que significa não atender ao tipo textual?
O não atendimento acontece quando não há predominância do texto dissertativo-argumentativo.
O aluno pode usar pequenos fragmentos narrativos ou descritivos como recurso. O problema ocorre quando a redação se transforma integralmente em:
- relato pessoal;
- conto;
- poema;
- letra de música;
- narrativa sem tese;
- sequência expositiva sem defesa de ponto de vista.
Na redação do Enem, o candidato precisa apresentar uma opinião, defendê-la por meio de argumentos e concluir o raciocínio com uma proposta de intervenção.
O que é uma Parte Desconectada?
Parte Desconectada, ou PD, é um fragmento deliberadamente inserido sem relação com o projeto textual.
Exemplos:
“Me ajuda, professor!”
“Meu nome é…”
“Deus é fiel.”
“Kkk.”
Também podem entrar nessa categoria desenhos, emoticons, bilhetes, frases dirigidas ao corretor ou sinais gráficos usados sem função textual.
A Parte Desconectada não deve ser confundida com uma frase mal escrita. Para receber essa classificação, o fragmento precisa estar claramente fora da argumentação e da seriedade exigida pelo exame.
Como corrigir a Competência 1 da redação do Enem?
Na Competência 1, o professor deve avaliar separadamente a estrutura sintática e os desvios gramaticais. Depois, prevalece o menor nível identificado entre os dois critérios.
Esse procedimento é chamado, no método trabalhado pelo Profinho, de regressão compulsória.
Uma redação pode ter poucos desvios e, ainda assim, não alcançar uma nota alta se as frases forem truncadas, excessivamente longas ou mal organizadas.
Qual é a diferença entre estrutura sintática e desvio?
Estrutura sintática é a forma como as frases são construídas. Desvio é a inadequação relacionada à gramática, ao registro ou às convenções da escrita.
| Critério | Exemplo de problema |
| Estrutura sintática | Frase incompleta, truncamento, justaposição ou período excessivamente longo |
| Desvio | Erro de concordância, regência, ortografia, acentuação ou pontuação |
O corretor não deve tratar os dois fenômenos como se fossem a mesma coisa.
Quais são os níveis da estrutura sintática?
A estrutura pode ser classificada como inexistente, deficitária, regular, boa ou excelente.
| Classificação | Características |
| Inexistente | Palavras soltas ou estruturas que não formam frases compreensíveis |
| Deficitária | Frases incompletas, soltas ou com falhas frequentes |
| Regular | Texto compreensível, mas com períodos truncados, longos ou mal organizados |
| Boa | Frases claras, organizadas e com poucas falhas |
| Excelente | Estruturas variadas, bem construídas e com, no máximo, uma falha excepcional |
A quantidade de desvios é analisada em seguida. Se a estrutura for regular, mas houver poucos desvios, a redação não sobe automaticamente para o nível correspondente aos desvios: prevalece o nível mais baixo.
Quando a estrutura sintática regular limita a nota?
A predominância de parágrafos formados por um único período costuma caracterizar estrutura sintática regular e limitar a Competência 1 a 120 pontos.
É o caso do parágrafo de sete ou oito linhas sem ponto final, no qual o aluno conecta todas as informações apenas com vírgulas.
O problema não é simplesmente escrever uma frase longa. O problema é não demonstrar controle sobre:
- divisão dos períodos;
- hierarquia das informações;
- pontuação;
- relação entre orações;
- ritmo de leitura.
O que é truncamento?
Truncamento é a separação indevida de uma estrutura que depende sintaticamente de outra.
Exemplo com truncamento
A tecnologia pode melhorar o atendimento no SUS. Sendo fundamental para a população.
A expressão “sendo fundamental para a população” não funciona como uma frase autônoma.
Versão corrigida
A tecnologia pode melhorar o atendimento no SUS, sendo fundamental para a população.
Uma construção ainda mais clara seria:
A tecnologia pode melhorar o atendimento no SUS e ampliar o acesso da população aos serviços de saúde.
O que é justaposição?
Justaposição ocorre quando orações independentes são unidas apenas por vírgulas, sem uma conexão sintática adequada.
Exemplo inadequado
O Estado precisa agir, a sociedade deve cobrar, as escolas precisam orientar os jovens.
Versão corrigida
O Estado precisa agir. Ao mesmo tempo, a sociedade deve cobrar medidas, e as escolas precisam orientar os jovens.
A justaposição também pode ser corrigida com ponto e vírgula ou com conectivos que expressem adequadamente a relação entre as ideias.
Como contar a reincidência dos desvios?
A reincidência deve considerar a natureza do desvio, e não apenas a quantidade visual de palavras marcadas.
No protocolo apresentado pelo Profinho, erros ligados ao mesmo radical podem ser contabilizados como uma única ocorrência da mesma natureza.
Se o aluno escreve:
- influênciadora;
- influênciante;
- influênciador;
o problema está no mesmo radical e pode ser agrupado.
Por outro lado, se o aluno comete diferentes erros de concordância verbal ao longo do texto, cada ocorrência deve ser considerada, porque aparece em estruturas sintáticas distintas.
O uso de maiúsculas e minúsculas conta como desvio?
Sim. O emprego inadequado de maiúsculas e minúsculas pode ser contabilizado como desvio de convenção da escrita.
Exemplos:
O estado deve garantir o direito à saúde.
Quando a palavra se refere ao Poder Público, deve ser escrita como Estado.
A constituição garante direitos fundamentais.
Quando se refere à Constituição Federal, a inicial deve ser maiúscula.
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Como corrigir a Competência 2 da redação do Enem?
Na Competência 2, o professor deve verificar, nesta ordem, se o aluno abordou completamente o tema, dominou o texto dissertativo-argumentativo e usou repertório sociocultural de forma adequada.
O erro mais comum é começar a correção procurando filósofos, filmes e citações. Antes do repertório, vem o tema.
Como saber se o aluno abordou o tema completo?
O professor deve identificar a expressão-chave e os comandos expressos da proposta e verificar se eles permanecem presentes ao longo do texto.
Considere novamente:
Caminhos para combater o etarismo no Brasil.
| Parte do tema | O que precisa aparecer |
| Expressão-chave | Etarismo |
| Comando | Caminhos para combater |
| Recorte | No Brasil |
Falar apenas sobre envelhecimento ou pessoas idosas não é suficiente. O aluno precisa discutir o preconceito etário e apresentar caminhos relacionados ao seu enfrentamento.
O que acontece quando o aluno tangencia o tema?
O tangenciamento grave leva a Competência 2 para a faixa de 40 pontos e também limita o desempenho das Competências 3 e 5.
Isso acontece porque não é possível avaliar plenamente a argumentação nem a proposta de intervenção quando ambas foram construídas sobre um recorte diferente daquele solicitado.
O professor deve evitar duas decisões precipitadas:
- considerar que uma única palavra do tema prova a abordagem completa;
- classificar como fuga total um texto que ainda permaneceu no campo geral do assunto.
O que é repertório de bolso?
Repertório de bolso é uma referência inserida de maneira superficial ou forçada, sem aderência real à expressão-chave do tema.
O problema não está em o aluno ter memorizado o repertório. O problema está em usá-lo como uma peça decorativa que poderia ser colocada em qualquer redação.
Exemplo de repertório de bolso
Carlos Drummond de Andrade afirmava que havia “uma pedra no meio do caminho”. De forma semelhante, os transtornos alimentares são pedras no caminho da saúde pública.
A construção pode parecer bonita, mas a “pedra no meio do caminho” não possui relação específica com transtornos alimentares.
Repertório coringa e repertório de bolso são a mesma coisa?
Não. Um repertório coringa só se torna repertório de bolso quando é forçado em um tema com o qual não possui relação verdadeira.
A obra Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, pode ser pertinente em um tema sobre os direitos da população cega.
A mesma obra pode se tornar repertório de bolso se for aplicada artificialmente a um tema sobre transtornos alimentares.
Portanto, nenhum repertório é de bolso por natureza. A classificação depende da relação estabelecida no texto.
Como aplicar a Técnica da Aderência?
A Técnica da Aderência verifica se o repertório realmente “cola” no tema.
Essa aderência pode acontecer quando existe pelo menos uma destas relações:
| Tipo de aderência | O que procurar |
| Sinonímia ou antonímia | O repertório contém uma ideia equivalente ou oposta à expressão-chave |
| Hiponímia ou hiperonímia | O repertório aborda uma categoria mais específica ou mais ampla do tema |
| Participação histórica | O autor, a obra ou o acontecimento já integra o debate relacionado ao tema |
A aderência é o primeiro filtro. Depois, o professor analisa legitimidade, pertinência e produtividade.
O que é repertório legitimado?
Repertório legitimado é aquele que apresenta marcas concretas de conhecimento.
O estudante precisa mostrar mais do que um nome solto.
São marcas de legitimação:
- nome da autoridade;
- obra;
- conceito;
- data;
- contexto histórico;
- explicação da ideia;
- informação verificável.
Uma novela, uma série ou um filme podem ser tão legitimados quanto um filósofo, desde que sejam apresentados com informações suficientes.
O que é repertório pertinente?
Repertório pertinente é aquele que possui relação real com o tema.
Se a proposta trata da democratização do acesso ao cinema, podem ser pertinentes:
- a história da criação das salas de cinema;
- o direito constitucional à cultura;
- dados sobre a distribuição de salas no Brasil;
- uma obra que discuta exclusão cultural.
Uma referência sobre perseguição nazista, por exemplo, não se torna pertinente apenas porque o aluno criou uma comparação genérica com o futuro do país.
O que é repertório produtivo?
Repertório produtivo é aquele usado ativamente para defender a tese.
A referência precisa participar do raciocínio por meio de:
- comparação;
- contraste;
- consequência;
- retomada;
- relação entre teoria e prática.
Uso pouco produtivo
Segundo Bauman, a sociedade é líquida. No Brasil, há intolerância religiosa.
Uso produtivo
Segundo Zygmunt Bauman, o individualismo é um dos principais conflitos da pós-modernidade. Esse problema assume contornos específicos no Brasil, onde determinados indivíduos rejeitam aqueles que possuem crenças diferentes das suas.
Na segunda versão, a teoria foi aplicada à discussão.
Um repertório produtivo garante 200 pontos na Competência 2?
Um repertório produtivo pode atender ao requisito relacionado ao repertório, mas a nota máxima também depende da abordagem completa do tema e do excelente domínio do texto dissertativo-argumentativo.
Não é necessário que todos os repertórios sejam extraordinários. Entretanto, a presença de uma ótima citação não compensa:
- tangenciamento;
- domínio insuficiente do tipo textual;
- ausência de argumentação;
- abordagem incompleta do tema.
Como corrigir a Competência 3 da redação do Enem?
Na Competência 3, o professor deve verificar se o aluno planejou a redação e cumpriu, nos desenvolvimentos e na conclusão, o projeto anunciado na introdução.
O texto pode ser entendido como um contrato:
| Parte | Compromisso do aluno |
| Introdução | Apresentar tese e antecipar os argumentos |
| Desenvolvimento 1 | Desenvolver o primeiro argumento |
| Desenvolvimento 2 | Desenvolver o segundo argumento |
| Conclusão | Propor soluções articuladas aos problemas discutidos |
Quando o aluno promete uma coisa e entrega outra, o projeto de texto se fragiliza.
O que é paralelismo argumentativo?
Paralelismo argumentativo é a manutenção da organização anunciada na introdução.
Se o aluno antecipa:
- argumento 1: omissão do Estado;
- argumento 2: preconceito social;
o primeiro desenvolvimento deve tratar da omissão estatal, e o segundo deve desenvolver o preconceito.
A quebra dessa ordem pode dificultar a leitura do projeto. O problema se torna mais grave quando um argumento é substituído por uma ideia completamente diferente.
Quais são as quatro grandes falhas de progressão textual?
As quatro falhas principais são lacuna argumentativa, falso desenvolvimento, desenvolvimento circular e abandono argumentativo.
| Falha | Diagnóstico |
| Lacuna argumentativa | Falta uma etapa necessária do raciocínio |
| Falso desenvolvimento | A mesma afirmação é repetida com outras palavras |
| Desenvolvimento circular | O parágrafo retorna continuamente à ideia inicial |
| Abandono argumentativo | Um argumento anunciado deixa de ser desenvolvido ou solucionado |
O que é uma lacuna argumentativa?
Lacuna argumentativa é um “buraco” que obriga o corretor a completar mentalmente o raciocínio do aluno.
Exemplo com lacuna
A omissão do Estado prejudica os idosos porque o governo não cumpre seu papel.
Ainda não sabemos:
- que omissão é essa;
- como ela aparece;
- qual direito é prejudicado;
- qual consequência é produzida.
Versão sem lacuna
A omissão estatal manifesta-se na carência de leitos geriátricos e de médicos especializados na rede pública, o que dificulta o diagnóstico precoce e amplia a vulnerabilidade da população idosa.
Agora a crítica foi concretizada.
O que é falso desenvolvimento?
Falso desenvolvimento é a repetição da mesma informação sem avanço argumentativo.
Exemplo
A intolerância prejudica as vítimas, porque elas são afetadas por esse preconceito.
A segunda parte apenas repete a primeira.
Versão melhorada
A intolerância fragiliza a autoestima das vítimas, favorece o isolamento social e pode desencadear quadros de ansiedade e depressão.
A nova frase acrescenta manifestações e consequências.
O que é desenvolvimento circular?
Desenvolvimento circular ocorre quando o parágrafo gira em torno da mesma ideia e sempre retorna ao ponto inicial.
Exemplo
O Estado é omisso. Essa omissão mostra que o governo não age. Como não há ação estatal, percebe-se a omissão do Estado.
O texto não progride.
Uma sequência mais eficiente seria:
argumento → repertório → interpretação → exemplo concreto → consequência → reflexão crítica.
O que é abandono argumentativo?
Abandono argumentativo ocorre quando um argumento prometido na introdução desaparece ao longo da redação.
Exemplo:
- introdução: omissão estatal e preconceito;
- desenvolvimento 1: omissão estatal;
- desenvolvimento 2: desigualdade econômica;
- conclusão: solução apenas para a desigualdade.
O preconceito foi abandonado, e uma nova ideia surgiu sem planejamento.
O que são exemplos antilacuna?
Exemplos antilacuna são manifestações concretas usadas para preencher uma crítica abstrata.
Em vez de escrever:
Há omissão estatal na área da saúde.
O aluno pode escrever:
A omissão estatal torna-se visível na falta de centros especializados, na insuficiência de profissionais e na demora para o atendimento.
Substantivos concretos ajudam muito:
- leitos;
- médicos;
- centros de atendimento;
- materiais didáticos;
- canais de denúncia;
- verbas;
- fiscalização;
- campanhas;
- profissionais capacitados.
O exemplo não substitui a argumentação. Ele torna o raciocínio verificável.
Como corrigir a Competência 4 da redação do Enem?
Na Competência 4, o professor deve avaliar a presença, a diversidade e a adequação dos recursos usados para conectar frases, períodos e parágrafos.
Não basta contar quantas vezes o aluno escreveu “ademais”, “portanto” ou “nesse sentido”. O conectivo precisa estabelecer uma relação semântica verdadeira.
O que deve existir para o texto alcançar o nível máximo?
No protocolo de correção trabalhado pelo Profinho, o nível máximo exige operadores argumentativos entre parágrafos em pelo menos dois momentos e algum elemento coesivo dentro de todos os parágrafos.
Em uma redação de quatro parágrafos, o professor pode verificar, por exemplo:
- um operador no início do desenvolvimento 2;
- um operador no início da conclusão;
- retomadas, pronomes ou conectivos dentro de cada parágrafo.
Quando o texto apresenta apenas um operador interparágrafo, tende a permanecer no nível de 160 pontos.
O que é uma inadequação coesiva?
Inadequação coesiva acontece quando o elemento de conexão é usado com um sentido incompatível com a relação entre as ideias.
Exemplo com “onde” inadequado
O Brasil vive uma crise social, onde milhares de pessoas são afetadas.
“Onde” deve retomar um lugar.
Versão corrigida
O Brasil vive uma crise social, na qual milhares de pessoas são afetadas.
Outro exemplo:
Ademais, a omissão estatal representa o primeiro problema a ser analisado.
Se nenhuma ideia foi apresentada antes, “ademais” não está adicionando informação alguma. Nesse caso, o conectivo foi escolhido pela aparência de formalidade, e não pelo sentido.
Uma única inadequação coesiva clara pode impedir o nível máximo da Competência 4.
Quais relações os conectivos podem expressar?
O professor deve verificar se o conectivo corresponde à intenção argumentativa do trecho.
| Relação | Exemplos |
| Adição | Ademais, além disso, nesse sentido |
| Oposição | Entretanto, todavia, no entanto |
| Conclusão | Portanto, assim, desse modo |
| Explicação | Porque, visto que, já que |
| Consequência | Por conseguinte, de modo que, com isso |
| Retomada | Esse problema, tal realidade, essa situação |
A diversidade é importante, mas a adequação vem primeiro.
Toda repetição de palavra prejudica a Competência 4?
Não. A repetição só é problemática quando ocorre por descuido e empobrece a articulação.
São repetições aceitáveis:
- palavras-chave do tema;
- termos usados para produzir ênfase;
- repetições necessárias ao paralelismo;
- retomadas intencionais;
- palavras sem substituto preciso.
O aluno não deve trocar um termo por um sinônimo impreciso apenas para evitar repetição.
O que é monobloco?
Monobloco é a redação escrita sem divisão nítida em parágrafos.
No protocolo trabalhado pelo Profinho, o monobloco limita a Competência 4 a 80 pontos.
Mesmo que existam conectivos dentro do texto, a ausência de paragrafação impede a visualização clara da organização entre:
- introdução;
- desenvolvimentos;
- conclusão.
O professor também deve verificar se os recuos estão suficientemente visíveis.
Como corrigir a Competência 5 da redação do Enem?
Na Competência 5, o professor deve verificar se a proposta está relacionada ao tema, articulada à argumentação, detalhada e construída com agente, ação, meio, finalidade e detalhamento.
A proposta não precisa acabar definitivamente com o problema. Ela precisa apresentar uma iniciativa aplicável e coerente com aquilo que foi discutido.
Quais são os cinco elementos da proposta de intervenção?
| Elemento | Pergunta |
| Agente | Quem executará a proposta? |
| Ação | O que será feito? |
| Meio ou modo | Como a ação será executada? |
| Efeito ou finalidade | Para que a ação será realizada? |
| Detalhamento | Que explicação ou exemplo torna a proposta mais concreta? |
Esses cinco elementos funcionam como checkpoints didáticos para verificar a completude da intervenção.
Como identificar um agente válido?
O agente deve ser identificável e possuir alguma capacidade de executar a ação proposta.
Exemplos de agentes válidos:
- Ministério da Educação;
- Ministério da Saúde;
- escolas;
- Poder Legislativo;
- prefeituras;
- famílias;
- sociedade civil;
- empresas de comunicação.
Exemplos de agentes vagos ou nulos:
- alguém;
- ninguém;
- todos;
- a gente;
- você;
- “é preciso que se faça”.
O agente pode ser duplo:
O Ministério da Educação e as escolas devem…
Como avaliar a ação?
A ação precisa mostrar uma iniciativa concreta, e não apenas uma intenção genérica.
Ação vaga
O governo deve conscientizar a população.
Ainda não está claro:
- sobre qual assunto;
- de que maneira;
- para qual público;
- com qual objetivo.
Ação concretizada
O Ministério da Educação deve desenvolver campanhas escolares que expliquem aos estudantes os efeitos da desinformação.
O verbo “conscientizar” não precisa ser tratado como uma palavra absolutamente proibida, mas não deve aparecer sozinho como solução. A proposta precisa explicar como a conscientização ocorrerá.
Expressões como estas tendem a configurar ações nulas:
- tomar as providências necessárias;
- dar o primeiro passo;
- fazer alguma coisa;
- pôr a mão na consciência.
Como identificar o meio ou modo?
O meio explica como a ação será colocada em prática.
A construção mais clara costuma ser “por meio de”.
O Ministério da Educação deve capacitar professores por meio de cursos de formação continuada.
Também podem aparecer estruturas como:
- por intermédio de;
- a partir de;
- mediante;
- com o uso de.
O meio precisa ser relativamente específico. “Por meio da educação” ainda é amplo demais. “Por meio de oficinas mensais e materiais pedagógicos” é mais concreto.
Como identificar a finalidade?
A finalidade apresenta o resultado que a ação pretende produzir.
Marcadores frequentes:
- a fim de;
- para que;
- com o objetivo de;
- com o intuito de.
“A fim de” deve ser escrito separadamente quando indica finalidade.
O professor também precisa verificar se existe uma relação lógica de causa e efeito.
Relação coerente
As escolas devem promover debates sobre etarismo, a fim de reduzir comportamentos discriminatórios entre os estudantes.
Relação frágil
As escolas devem distribuir cartazes, a fim de acabar definitivamente com o etarismo no Brasil.
A consequência prometida é desproporcional à ação.
O que pode ser considerado detalhamento?
O detalhamento é uma informação adicional que explica ou exemplifica um dos outros elementos.
Detalhamento do agente
O Ministério da Educação — responsável pela coordenação das políticas educacionais — deve…
Detalhamento do meio
por meio de projetos pedagógicos, como oficinas, debates e aulas temáticas…
Detalhamento da finalidade
a fim de ampliar o acesso ao atendimento, especialmente em comunidades afastadas dos centros urbanos.
Informações isoladas de tempo e lugar não são, por si só, detalhamentos.
A proposta condicional perde pontos?
No protocolo apresentado pelo Profinho, uma proposta construída inteiramente de maneira condicional pode limitar a Competência 5 a 80 pontos.
Forma condicional
Se o governo investisse em campanhas, o problema poderia ser reduzido.
Forma assertiva
O governo deve investir em campanhas para reduzir o problema.
Prefira:
- deve;
- cabe a;
- compete a;
- precisa;
- é responsabilidade de.
O que acontece quando há desrespeito aos direitos humanos?
O desrespeito deliberado aos direitos humanos zera a Competência 5, mas as outras competências continuam sendo corrigidas.
São problemáticas propostas que defendem:
- vingança;
- tortura;
- execução;
- violência;
- justiça com as próprias mãos;
- punições cruéis;
- exclusão de direitos fundamentais.
O professor deve distinguir uma crítica social forte de uma proposta que efetivamente incita a violência.
Como fica uma proposta completa?
Portanto, o Ministério da Educação — responsável pela coordenação das políticas educacionais — deve capacitar professores para identificar casos de discriminação etária, por meio de cursos de formação continuada e materiais pedagógicos destinados às escolas, a fim de prevenir o etarismo no ambiente educacional e garantir o respeito entre diferentes gerações.
| Elemento | Trecho |
| Agente | Ministério da Educação |
| Ação | Capacitar professores |
| Meio | Cursos de formação e materiais pedagógicos |
| Finalidade | Prevenir o etarismo e garantir o respeito |
| Detalhamento | Responsável pela coordenação das políticas educacionais |
Como transformar os critérios em uma nota?
A nota deve sair da matriz e das evidências encontradas no texto, e não da impressão geral do professor.
Para cada competência, registre:
- o fenômeno observado;
- o trecho em que ele aparece;
- o nível correspondente;
- o que impediu a nota seguinte;
- a ação de reescrita.
Como justificar a nota de forma técnica?
Em vez de escrever:
C3: 160. Melhore a argumentação.
Prefira:
C3 — 160 pontos. O texto apresenta os dois argumentos anunciados na introdução e os desenvolve na ordem planejada. Entretanto, o segundo parágrafo contém uma lacuna argumentativa: a omissão estatal é mencionada, mas não há exemplos que mostrem como ela se manifesta. Para avançar, reescreva o aprofundamento acrescentando duas manifestações concretas dessa omissão.
A justificativa apresenta diagnóstico, evidência e próximo passo.
Qual modelo pode ser usado em todas as competências?
Competência e nota:
Acerto principal:
Problema identificado:
Trecho em que aparece:
O que impediu a nota seguinte:
Tarefa de reescrita:
Esse padrão também protege o professor contra questionamentos, porque deixa visível o caminho usado para chegar à pontuação.
Como dar uma devolutiva que realmente ensina?
Uma devolutiva eficiente destaca um acerto, prioriza um ou dois problemas e apresenta uma tarefa concreta de reescrita.
Listar dez defeitos de uma vez pode paralisar o estudante. A correção deve ser completa, mas a orientação precisa estabelecer uma ordem de prioridade.
Como estruturar o feedback?
Você manteve o foco temático e apresentou um repertório pertinente no primeiro desenvolvimento. O principal ponto de melhoria está na Competência 3: o segundo parágrafo afirma que o Estado é omisso, mas não concretiza essa omissão. Reescreva o trecho acrescentando dois exemplos, como a falta de profissionais especializados e a insuficiência de centros de atendimento.
Esse feedback mostra:
- o que deve ser mantido;
- qual é o problema prioritário;
- onde ele está;
- o que o aluno precisa fazer.
Técnicas mais detalhadas estão no artigo sobre como dar feedback eficiente em redações.
É necessário pedir a reescrita?
Sim. É na segunda versão que a correção se transforma em habilidade.
A reescrita pode ser:
- do texto completo;
- de um parágrafo;
- de uma tese;
- de um aprofundamento com lacuna;
- de uma proposta de intervenção;
- de três frases com falhas sintáticas.
O tamanho da tarefa deve corresponder ao problema prioritário do aluno.
Ferramentas automáticas substituem o professor?
Não. Elas podem aplicar critérios, organizar informações e acelerar tarefas, mas não substituem a leitura pedagógica e o acompanhamento da evolução.
O professor continua responsável por:
- validar o diagnóstico;
- interpretar casos ambíguos;
- escolher a prioridade;
- explicar o problema;
- propor uma reescrita adequada;
- acompanhar a versão seguinte.
Como evoluir como corretor?
A correção melhora quando o professor compara casos reais, discute divergências e aprende a aplicar a matriz com outros profissionais.
Na Comunidade FAPEP, professores de redação de todo o Brasil estudam as grades de correção, analisam textos reais e desenvolvem métodos para tornar a avaliação mais segura, rápida e pedagógica.
Para acompanhar o processo na prática, assista ao vídeo do Profinho “Como ser um BOM CORRETOR do ENEM”.
Para aprofundar as cinco competências, o repertório de bolso, a Técnica da Aderência, as lacunas argumentativas e a proposta de intervenção, conheça O Guia da Redação Nota 1000, do professor Vinícius Oliveira, o Profinho.



