Mapa de questões · 1º dia
LinguagensEnem 2025 Pará

Questão 7 — ENEM 2025 PARÁCaderno azul · 1º Dia

Saudades da secretária eletrônica

Talvez o Vale do Silício queira transformar nossos cérebros em patê para depois comê-lo

Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana passada, por exemplo, me escreveu à uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada: “Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas coisas”.

Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”. “Por onde?”. Silêncio. “Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram, no Twitter…”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.

Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”: aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).

Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.

Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?! De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?

Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos, hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.

O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê? “Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos sem inventarem nada. Nada. Que saudades da secretária eletrônica”.

PRATA, A. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 11 ago. 2024 (adaptado).

Questão 07

Dentre os vários aspectos que podem ser elencados como caracterizadores do gênero crônica, nesse texto fica evidente o(a)

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Gabarito oficial: D

Gabarito letra D. A crônica articula situações pessoais e reflexão sobre a vida contemporânea. Para reconhecer uma marca de gênero num item, explique a função dos episódios dentro do texto, em vez de apenas constatar que há acontecimentos ou personagens.

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📋 Ficha da questão

  • Área: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
  • Conteúdo: Reflexão sobre a vida contemporânea como marca da crônica.
  • Prova: Enem 2025 Pará, Belém/Ananindeua/Marituba, 1º dia.
  • Identificação: questão 7, caderno 1 azul, página 7.

🔎 Passo 1 — Leia o comando

A pergunta pede uma característica do gênero crônica que fica evidente neste texto. Não basta listar algo que pode aparecer em qualquer narrativa. Vamos observar a função da conversa com o pai no conjunto: ela apresenta apenas um acontecimento ou serve de ponto de partida para pensar a vida contemporânea?

📚 Passo 2 — Revise o conceito

A crônica admite diferentes formas e pode misturar relato, comentário e reflexão. Neste caso, episódios do cotidiano sustentam uma avaliação sobre tecnologia, informação e modos de viver. A característica pedida não é uma regra que toda crônica precise seguir, mas o procedimento que mais claramente organiza este texto específico.

🧭 Passo 3 — Encontre as pistas

  • A conversa sobre a mensagem esquecida leva a uma discussão sobre a quantidade de canais digitais. O texto passa do episódio familiar a um problema compartilhado.
  • O pai propõe uma pausa nas invenções, e o narrador responde “Concordo”, passando a comentar as atualizações e a maneira de pensar.
  • As referências ao Vale do Silício, aos aplicativos e ao fluxo de informação situam a reflexão em aspectos da vida contemporânea. O final retoma o desejo de pausa.

🧠 Passo 4 — Resolva passo a passo

1. Identifique o ponto de partida

O começo aproxima o leitor do pai do narrador por situações reconhecíveis: pedir comida, mandar mensagens e esquecer por onde escreveu. Esses episódios dão concretude ao tema, em vez de apresentar uma discussão abstrata desde a primeira linha.

2. Acompanhe a ampliação do comentário

Depois do caso familiar, o texto aborda sobrecarga informacional, atualizações de programas e relações entre modos de agir e de pensar. O narrador deixa clara sua avaliação e conecta a experiência particular a questões do presente.

3. Escolha o traço dominante neste texto

Há acontecimentos e pequenas cenas, mas o texto não depende de acompanhar um único conflito até seu desfecho. A articulação desses exemplos com comentários sustenta uma reflexão sobre a vida atual. É isso que a alternativa deve destacar.

✅ Passo 5 — Analise as alternativas

A) presença de núcleos narrativos diversos.

Os exemplos e comentários não formam necessariamente núcleos narrativos autônomos, com histórias independentes. Eles se articulam em torno da reflexão sobre os recursos digitais. A opção transforma a diversidade de referências numa organização narrativa que não é o traço destacado.

B) flagrante de um acontecimento específico.

A ligação sobre a mensagem é um episódio específico, mas o texto não se limita a flagrá-lo. Ele amplia o assunto para discutir informação, novidades tecnológicas e formas de viver. A alternativa toma o ponto de partida como se fosse a organização completa.

C) enredo centrado em uma situação conflituosa.

Existe tensão entre as personagens e os recursos digitais, porém o enredo não se concentra num conflito a ser solucionado entre elas. A conversa familiar serve à reflexão e não à condução de uma trama de confronto.

D) reflexão sobre um tema da vida contemporânea.

O texto usa situações cotidianas para refletir sobre um tema contemporâneo: o excesso de novidades e informações digitais. Essa combinação explica o percurso entre o episódio do pai e as avaliações do narrador.

E) passagem rápida do tempo na condução narrativa.

As referências a diferentes momentos não têm como função principal acelerar a passagem do tempo. Elas oferecem exemplos e comparações para o comentário sobre a vida atual. A opção destaca um efeito temporal que não organiza o texto.

🏁 Passo 6 — Leve o raciocínio para a prova

Gabarito letra D. A crônica articula situações pessoais e reflexão sobre a vida contemporânea. Para reconhecer uma marca de gênero num item, explique a função dos episódios dentro do texto, em vez de apenas constatar que há acontecimentos ou personagens.

Erro comum: Aplicar uma definição genérica de narrativa sem observar o peso dos comentários e da reflexão.

Para a próxima questão: Depois do acontecimento inicial, o narrador quer apenas contar o que houve ou pensar um problema mais amplo?

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