Mapa de questões · 1º dia
Questão 35 — ENEM 2025 PARÁCaderno azul · 1º Dia
Texto da questão
Certo sábado, o sinhô José Carlos recebeu visitas, sete ou oito homens da capital. Eram pessoas importantes, pois nós, da cozinha, trabalhamos muito preparando quitutes sob a supervisão da sinhá Ana Felipa, que acompanhava tudo de caderno em punho e língua afiada. Depois de cada prato pronto, ela experimentava e jogava fora o que não ficava bom, no lixo mesmo, não sem antes jogar água ou fazer qualquer outra coisa para que nós não pudéssemos aproveitar.
Fazia isso dizendo que preto não tinha paladar para apreciar aquele tipo de comida e nem ela queria ser acusada de ter alimentado escravos com comida digna de reis, mesmo que estragada pela nossa incompetência, pelo nosso dom de fazer somente a ração a que estávamos acostumados todos os dias.
O Sebastião e a Antônia, que serviriam os pratos, ganharam fardas novas. Ficaram horas com a sinhá Ana Felipa, que mostrou de que lado de cada pessoa deveriam servir à mesa, a ordem em que os pratos sairiam da cozinha e depois seriam retirados, como encher os copos, e outras coisas.
GONÇALVES, A. M. Um defeito de cor. Rio de Janeiro: Record, 2010.
Questão 35
Nesse trecho do romance, as tensões do contexto narrativo refletem-se na
Alternativas
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Gabarito oficial: A
Gabarito letra A. O tratamento das pessoas escravizadas revela as tensões da sociedade representada. Em narrativas, observe para que servem gestos cotidianos e quais relações de poder eles tornam visíveis.
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Entenda a lógica
por trás da resposta.
Aprenda a ler o comando, identificar as pistas do texto e avaliar as alternativas.
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📋 Ficha da questão
- Área: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
- Conteúdo: Literatura e relações de poder no escravismo.
- Prova: Enem 2025 Pará, Belém/Ananindeua/Marituba, 1º dia.
- Identificação: questão 35, caderno 1 azul, página 16.
🔎 Passo 1 — Leia o comando
O comando pede onde se refletem as tensões do contexto narrativo. Preparar uma refeição e aprender o serviço de mesa são ações da cena, mas precisamos observar as relações de poder que atravessam essas ações. Quem decide, quem é humilhado e a quem se nega até a comida descartada?
📚 Passo 2 — Revise o conceito
O contexto escravista organiza relações de coerção e desumanização. Na narrativa, práticas aparentemente domésticas podem revelar essa estrutura por meio das falas e atitudes dos personagens. A interpretação não deve reduzir a violência racial a uma simples diferença de gosto ou a uma regra de etiqueta: é preciso examinar como as pessoas são tratadas.
🧭 Passo 3 — Encontre as pistas
- A senhora joga água nos pratos descartados para impedir que as pessoas escravizadas aproveitem a comida. O desperdício funciona como privação deliberada, e não apenas como avaliação culinária.
- A fala que nega aos negros paladar para apreciar a comida expressa uma hierarquia racial. A distinção entre “comida digna de reis” e “ração” reforça a desumanização.
- A narradora se inclui em “nós, da cozinha”. A violência é apresentada a partir da experiência dos submetidos àquela ordem, não como descrição neutra de uma recepção.
🧠 Passo 4 — Resolva passo a passo
1. Localize a ação e sua finalidade
Descartar um prato não é o ponto decisivo. A senhora torna os restos inutilizáveis para impedir o consumo por quem trabalha na cozinha. Essa finalidade mostra a crueldade da relação.
2. Relacione fala e estrutura social
A justificativa usa uma generalização racista para desqualificar as pessoas escravizadas. A organização da refeição materializa uma desigualdade que ultrapassa preferências alimentares individuais.
3. Escolha o foco do conflito
O serviço de mesa integra a cena, mas as tensões se manifestam sobretudo no tratamento dispensado aos escravizados. A opção correta precisa nomear essa relação humana e social.
✅ Passo 5 — Analise as alternativas
A) maneira como as pessoas escravizadas são tratadas.
A privação deliberada da comida, a humilhação racial e a coerção no trabalho evidenciam o tratamento das pessoas escravizadas. Esses elementos concretizam as tensões do contexto narrativo.
B) forma como as relações interpessoais são questionadas.
A perspectiva da narradora permite uma leitura crítica, mas a cena não se organiza como debate ou questionamento direto entre os personagens sobre as relações interpessoais. O foco está no tratamento imposto.
C) diferença de hábitos alimentares comuns ao período colonial.
O contraste não é simplesmente entre hábitos alimentares comuns a uma época. A senhora usa a comida para afirmar uma hierarquia racial e negar humanidade às pessoas que a preparam.
D) exigência do respeito a tradições próprias da classe dominante.
Há exigência de normas de serviço, mas reduzir o conflito a respeito por tradições da elite apaga a humilhação e a privação. A tensão central não é apenas uma diferença de costumes.
E) organização do espaço conforme os costumes vigentes à época.
Cozinha e mesa participam da ambientação, mas a organização espacial não explica a violência descrita. As ações da senhora e sua fala racializada são as evidências fundamentais do conflito.
🏁 Passo 6 — Leve o raciocínio para a prova
Gabarito letra A. O tratamento das pessoas escravizadas revela as tensões da sociedade representada. Em narrativas, observe para que servem gestos cotidianos e quais relações de poder eles tornam visíveis.
Erro comum: Tratar violência e humilhação racial como simples diferença de costume ou etiqueta.
Para a próxima questão: Pergunte qual ação concreta evidencia o conflito, em vez de escolher apenas um elemento do cenário.
