Mapa de questões · 1º dia
Questão 10 — ENEM 2025 PARÁCaderno azul · 1º Dia
Texto para as questões de 6 a 10
Saudades da secretária eletrônica
Talvez o Vale do Silício queira transformar nossos cérebros em patê para depois comê-lo
Meu velho pai sabe das coisas. Eu o chamo de “velho pai” não porque seja realmente velho: é como ele se chama ao falar comigo. Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe um cachimbo na boca pra uma foto. Outras vezes é mais a sério — acende o cachimbo. Na semana passada, por exemplo, me escreveu à uma e meia da manhã pedindo para lhe mandar um x-salada: “Alimente seu velho pai”. Meu velho pai não usa Uber Eats, iFood, Rappi ou qualquer uma “dessas coisas”.
Meu velho pai tá de saco cheio “dessas coisas”. Outro dia ele me ligou. “Recebeu minha mensagem?”. “Por onde?”. Silêncio. “Não aguento mais essas coisas” — e começou a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais: “É WhatsApp, SMS, e-mail, DM no Facebook, no Instagram, no Twitter…”. “Qual era a mensagem, pai?”. “Aí é que tá. Eu tive uma ideia muito boa no meio da noite e te escrevi pra não esquecer, agora não lembro nem da ideia e nem por onde escrevi”.
Segundo meu velho pai, a razão de ele e tantos outros estarmos desmemoriados é “dessas coisas”: aplicativos e plataformas e dispositivos jorrando uma quantidade infinita de informação que de bom grado entuchamos retina abaixo, cada tela um daqueles funis de milho pra transformar fígado de ganso em patê. (Talvez o plano do Zuckerberg e seus comparsas seja esse: transformar nossos cérebros em patê para depois comê-los com cream-crackers-low-carb-glúten-free-ESG-sem-pegadas-de-carbono. A hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo).
Meu velho pai tá injuriado com o furdunço global que estamos vivendo e tem uma proposta bem razoável para minorá-lo. “Cinco anos sem inventarem nada. Nada. Todo mundo fica com o celular que tem, com o Android que tem, o IOS que tem, com os aplicativos que tem e os canais de televisão que tem. Quando a gente aprender a usar tudo, assistir a todas as séries, ler todos os livros, ouvir todos os podcasts, vê se precisa inventar mais alguma coisa ou para por aí mesmo”.
Concordo. A humanidade precisa de um novo Adobe Reader a cada semana pra quê, exatamente?! De que forma PhDs em física podem “otimizar” um troço que é basicamente um xerox eletrônico?
Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de “a infraestrutura produz a superestrutura”. Mais tarde entendi e era simples e verdadeiro. A nossa maneira de agir molda a nossa maneira de pensar. Um pescador no século 19 se relaciona com o tempo, a comida, o sexo e as unhas dos pés de formas completamente diferentes do que um programador de vinte e dois anos, hoje, no Vale do Silício. É evidente que existe uma ligação direta entre a placa do meu celular e a minha placa para bruxismo. Quando meus dedos aflitos param de digitar, passam o turno pros dentes.
O supracitado alemão resumiu o que parecia ser o fim dos tempos com a frase “tudo o que é sólido desmancha no ar”. O que diria sobre nossa época em que o próprio ar se desmancha, inundado por dióxido de carbono, metano, óxido nitroso e sei lá mais o quê? “Tinha que ser geral”, sugere meu velho pai, “com Biden, Merkel, China, ONU, com tudo: cinco anos sem inventarem nada. Nada. Que saudades da secretária eletrônica”.
PRATA, A. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 11 ago. 2024 (adaptado).
Questão 10
Esse texto organiza-se pelo encadeamento de sequências textuais diversas. Entre elas, a sequência argumentativa, que está apresentada em:
Alternativas
Ver Gabarito
Gabarito oficial: D
Gabarito letra D. A passagem articula julgamento e comparação para reforçar uma visão crítica do “furdunço global”. Para distinguir sequências, pergunte o que o trecho faz naquele ponto: conta, caracteriza ou apresenta uma avaliação sustentada por uma relação de ideias?
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Entenda a lógica
por trás da resposta.
Aprenda a ler o comando, identificar as pistas do texto e avaliar as alternativas.
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📋 Ficha da questão
- Área: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
- Conteúdo: Avaliação e sequência argumentativa na crônica.
- Prova: Enem 2025 Pará, Belém/Ananindeua/Marituba, 1º dia.
- Identificação: questão 10, caderno 1 azul, página 7.
🔎 Passo 1 — Leia o comando
A pergunta distingue sequências textuais dentro da mesma crônica. Vamos procurar a passagem que apresenta uma avaliação e a sustenta por uma relação entre ideias. Nem toda informação sobre o descontentamento do pai é, por si só, o argumento do narrador: algumas opções apenas relatam ações ou descrevem estados da personagem.
📚 Passo 2 — Revise o conceito
Textos podem combinar sequências narrativas, descritivas e argumentativas. Narrar organiza acontecimentos; descrever caracteriza situações ou pessoas; argumentar apresenta uma posição e relações que a tornam compreensível ou defensável. Na opção correta, o narrador avalia uma hipótese e a compara à realidade para reforçar sua crítica.
🧭 Passo 3 — Encontre as pistas
- “A hipótese é absurda” contém um julgamento explícito do narrador sobre o cenário humorístico que acabou de imaginar.
- A continuação “mas não mais que” compara o absurdo da hipótese ao “furdunço global”. Essa relação intensifica a avaliação crítica da realidade.
- Os demais excertos mostram modos de agir, um estado de incômodo, o início de uma reclamação ou uma lembrança da faculdade. O objetivo é distinguir a função dominante em cada passagem.
🧠 Passo 4 — Resolva passo a passo
1. Localize a posição assumida
A palavra absurda qualifica a hipótese sobre cérebros transformados em patê. O narrador não apenas informa que ela existe: emite uma avaliação sobre seu grau de absurdo e prepara a relação com o presente.
2. Explique a força da comparação
Ao dizer que a hipótese não é mais absurda que o mundo em que vivem, o narrador usa o exagero para criticar a realidade. A construção com mas impede que a hipótese seja descartada sem atingir também o cotidiano considerado desordenado.
3. Diferencie argumento de relato de opinião alheia
Dizer que o pai está irritado ou começou a reclamar registra uma atitude da personagem. Na alternativa D, o próprio enunciado faz uma avaliação comparativa e conduz o leitor à posição crítica do narrador. É essa função que a pergunta recorta.
✅ Passo 5 — Analise as alternativas
A) “Às vezes usa o epíteto num modo semi-irônico, como quem põe um cachimbo na boca pra uma foto”. (l. 2-3)
A passagem explica modos pelos quais o pai usa o epíteto e os aproxima da imagem de alguém posando com um cachimbo. A comparação ajuda a caracterizar a atitude da personagem, mas não sustenta ali a avaliação global que aparece em D.
B) “Meu velho pai tá de saco cheio ‘dessas coisas’”. (l. 7)
O excerto registra o estado de descontentamento do pai. Embora esse estado participe do tema da crônica, a frase isolada não desenvolve uma relação para sustentar uma posição. Ela caracteriza a personagem no relato.
C) “e começou a reclamar da dificuldade de nos comunicarmos por tantos canais”. (l. 8-9)
A passagem narra o início da reclamação do pai e informa seu assunto. O texto relata uma ação, sem apresentar nesse recorte a comparação avaliativa que torna D a sequência argumentativa solicitada.
D) “A hipótese é absurda, mas não mais que o furdunço global que estamos vivendo”. (l. 18-19)
A avaliação da hipótese como absurda é articulada à avaliação do mundo atual pela expressão “mas não mais que”. A relação defende criticamente uma visão sobre a realidade, em vez de apenas contar um acontecimento.
E) “Na faculdade eu penava pra entender o que o Marx queria dizer com aquele papo de ‘a infraestrutura produz a superestrutura’”. (l. 29-30)
O narrador recorda a dificuldade que tinha, na faculdade, para entender uma formulação de Marx. Esse recorte recupera uma experiência passada. A reflexão que virá depois não transforma automaticamente essa lembrança isolada na sequência pedida.
🏁 Passo 6 — Leve o raciocínio para a prova
Gabarito letra D. A passagem articula julgamento e comparação para reforçar uma visão crítica do “furdunço global”. Para distinguir sequências, pergunte o que o trecho faz naquele ponto: conta, caracteriza ou apresenta uma avaliação sustentada por uma relação de ideias?
Erro comum: Confundir a presença de uma reclamação no assunto com uma sequência que efetivamente argumenta.
Para a próxima questão: Localize tanto a avaliação quanto a relação que a sustenta; uma palavra opinativa isolada não explica todo o funcionamento.
