Mapa de questões · 1º dia
Questão 29 — ENEM 2025 PARÁCaderno azul · 1º Dia
Texto da questão
A escrava
Senti-me tocada de veneração em presença daquele amor filial, tão singelamente manifestado.
— Sigamos, então, — tornei eu.
Gabriel caminhava tão apressadamente que eu mal podia acompanhá-lo.
Em menos de quinze minutos transpúnhamos o umbral da casinha, que há dois dias apenas eu habitava.
Eu bem conhecia a gravidade do meu ato: recebia em meu lar dois escravos foragidos, e escravos talvez de algum poderoso senhor; era expor-me à vindita da lei; mas em primeiro lugar o meu dever, e o meu dever era socorrer aqueles infelizes.
Sim, a vindita da lei; lei que infelizmente ainda perdura, lei que garante ao forte o direito abusivo, e execrando de oprimir o fraco.
Mas, deixar de prestar auxílio àqueles desgraçados, tão abandonados, tão perseguidos, que nem para a agonia derradeira, nem para transpor esse tremendo portal da Eternidade, tinham sossego, ou tranquilidade! Não.
Tomei com coragem a responsabilidade do meu ato: a humanidade me impunha esse santo dever.
REIS, M. F. dos. A escrava. In: A escrava: antologia de prosa e versos. São Paulo: Metabiblioteca, 2021.
Questão 29
Nesse fragmento, o ponto de vista da narradora inova na tradição observada no romance romântico, pois
Alternativas
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Gabarito oficial: B
Gabarito letra B. A perspectiva abolicionista confronta o silenciamento da escravidão. Em questões sobre inovação literária, ligue o posicionamento do narrador ao tema e à tradição mencionados no comando.
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Entenda a lógica
por trás da resposta.
Aprenda a ler o comando, identificar as pistas do texto e avaliar as alternativas.
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📋 Ficha da questão
- Área: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
- Conteúdo: Literatura brasileira: abolicionismo e voz narrativa.
- Prova: Enem 2025 Pará, Belém/Ananindeua/Marituba, 1º dia.
- Identificação: questão 29, caderno 1 azul, página 14.
🔎 Passo 1 — Leia o comando
O comando pede o que há de inovador no ponto de vista da narradora diante da tradição romântica. Não basta localizar uma emoção do fragmento. Precisamos reconhecer o problema social que a voz narrativa assume e como ela avalia a ordem que o mantém.
📚 Passo 2 — Revise o conceito
A literatura romântica brasileira frequentemente privilegiou projetos nacionais idealizados e deixou a experiência da população escravizada à margem. A escrita de Maria Firmina dos Reis dá centralidade à denúncia da escravidão. A inovação considerada no item está no enfrentamento desse silenciamento, com uma perspectiva que põe em questão a legitimidade moral da ordem escravista.
🧭 Passo 3 — Encontre as pistas
- A narradora acolhe “dois escravos foragidos”, consciente do risco de punição. A ajuda não é um gesto abstrato: confronta uma situação concreta de perseguição.
- A lei é descrita como garantia do “direito abusivo” do forte de oprimir o fraco. A narradora não trata a legalidade como medida suficiente de justiça.
- Ao afirmar que “a humanidade me impunha esse santo dever”, a voz narrativa coloca o socorro às pessoas escravizadas acima da obediência à ordem que as persegue.
🧠 Passo 4 — Resolva passo a passo
1. Identifique o conflito
O dilema opõe a obrigação legal, ligada ao poder dos senhores, ao dever humano de prestar auxílio. A narradora conhece a lei e escolhe assumir a responsabilidade por acolher os fugitivos.
2. Observe a avaliação narrativa
Expressões como “abusivo” e “execrando” condenam a opressão. O ponto de vista não se limita a compadecer-se dos perseguidos: denuncia o sistema que lhes retira sossego e proteção.
3. Relacione ao recorte literário
A pergunta é histórica e literária: o que ganha voz nessa narrativa? A tematização crítica da escravidão enfrenta um silêncio da tradição, em vez de apenas repetir um sentimento frequente no romance romântico.
✅ Passo 5 — Analise as alternativas
A) contradiz o ufanismo nacionalista vigente.
O trecho não concentra sua crítica em exaltações nacionalistas ou em uma comparação entre Brasil e outros países. Embora a escravidão possa problematizar uma imagem idealizada da nação, a inovação explicitada é dar voz ao tema silenciado.
B) aborda um tema deliberadamente silenciado.
A narradora denuncia a perseguição às pessoas escravizadas e o caráter opressivo da lei. Esse posicionamento põe em primeiro plano uma experiência frequentemente silenciada pela tradição literária dominante.
C) questiona a vulnerabilidade dos personagens.
A narradora reconhece e condena a desproteção das pessoas escravizadas, mas a alternativa não identifica o aspecto histórico-literário que explica a inovação. O diferencial recortado é trazer ao centro a denúncia da escravidão, tema silenciado na tradição dominante.
D) reconhece a gravidade da insubmissão às leis.
A consciência do risco legal está no texto, mas, sozinha, não explica a inovação literária. A narradora reconhece a gravidade do ato para evidenciar sua escolha ética de enfrentar a ordem escravista.
E) expressa o sofrimento ante a iminência da morte.
A agonia e a morte aparecem entre as situações de desamparo dos perseguidos. O sofrimento diante da morte não constitui, por si, uma novidade em relação à tradição romântica.
🏁 Passo 6 — Leve o raciocínio para a prova
Gabarito letra B. A perspectiva abolicionista confronta o silenciamento da escravidão. Em questões sobre inovação literária, ligue o posicionamento do narrador ao tema e à tradição mencionados no comando.
Erro comum: Escolher uma informação verdadeira do fragmento sem verificar se ela explica a inovação literária pedida.
Para a próxima questão: Diferencie “isso aparece no texto” de “isso responde ao recorte histórico do comando”.
