Mapa de questões · 1º dia
Questão 6 — ENEM 2025Caderno azul · 1º Dia
Texto para as questões de 6 a 10
De próprio punho
A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro
Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, mais rotunda e mais cheia de arestas.
É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus e o mundo.
A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso.
No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais ainda as adultas) precisa conviver.
As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.
RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).
Questão 06
No que diz respeito ao gênero bilhete, a autora dessa crônica
Alternativas
Ver Gabarito
Gabarito oficial: E
Gabarito letra E. Na cozinha, a autora manda recados para quem mora com ela. Na mesa de trabalho, escreve lembretes para si. São usos diferentes do bilhete no cotidiano.
Continue com o Profinho
Entenda a lógica
por trás da resposta.
Aprenda a ler o comando, identificar as pistas do texto e avaliar as alternativas.
Conhecer o curso ↗Resolução
📋 Ficha da questão
- Área: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
- Conteúdo: Gêneros textuais e finalidade comunicativa.
- Prova: Enem 2025, aplicação regular, 1º dia.
- Identificação: questão 6, caderno 1 azul, página 7.
🔎 Passo 1 — Leia o comando
Galerinha, vamos começar pelo comando. Ele pede que você observe como a autora apresenta o gênero bilhete. Já sabemos o que procurar: para quem ela escreve esses recados e para que eles servem.
Antes de olhar as opções, guarde esse recorte. A resposta precisa explicar os usos do bilhete que aparecem na crônica.
📚 Passo 2 — Revise o conceito
Opa, o comando destacou um gênero textual. Então vamos observar a situação de comunicação: quem escreve, para quem escreve e com qual finalidade.
O texto que estamos lendo é uma crônica, e nele a autora comenta seus bilhetes. O mesmo gênero pode atender a necessidades diferentes. É isso que vamos conferir nos exemplos.
🧭 Passo 3 — Encontre as pistas
Bora voltar ao texto. Os recados da cozinha são dirigidos às pessoas que moram com a autora. Ali, ela usa o bilhete para se comunicar com os outros.
E os lembretes da mesa de trabalho, são para quem? Para ela mesma. Eles ajudam a lembrar o que precisa fazer. Temos, portanto, recados para outras pessoas e anotações para organizar as próprias tarefas.
🧠 Passo 4 — Resolva passo a passo
1. Delimite o que a pergunta quer
A pergunta destacou os bilhetes. Por isso, volte aos exemplos da cozinha e da mesa de trabalho e observe a função de cada um. Eles dão a base para escolher a alternativa.
2. Compare os destinatários e as funções
Na cozinha, a autora conversa com quem mora com ela. Na mesa, registra lembretes para si. Percebeu o que muda? O destinatário e a necessidade que aquele bilhete atende.
3. Escolha a resposta que reúne os exemplos
Agora junte as duas situações. O texto mostra diferentes usos do bilhete no cotidiano. Procure a opção que reúne esses exemplos e confira se ela mantém o que a autora apresentou, sem acrescentar uma obrigação ou uma crítica que o trecho não sustenta.
✅ Passo 5 — Analise as alternativas
Vamos conferir cada opção pelo que ela afirma. Encontrar uma palavra do texto é só o começo: ainda precisamos verificar o sentido completo da alternativa.
✕ A) ressalta a formalidade na comunicação com as pessoas de sua convivência.
Os bilhetes de casa e os lembretes pessoais mostram situações de proximidade. A formalidade do episódio bancário, no início da crônica, não explica a comunicação desses recados com as pessoas da convivência da autora. A opção muda o foco dos exemplos.
✕ B) critica a ansiedade causada pela velocidade da comunicação.
A palavra ansiedade aparece no texto, sim. Mas qual é a causa apresentada? A sequência de tarefas da vida adulta, que os lembretes ajudam a organizar. A alternativa atribui essa ansiedade à velocidade da comunicação. Essa relação não é a que o texto estabelece.
✕ C) expressa a obrigatoriedade de concisão nas anotações.
A autora comenta que faz lembretes curtos e que, às vezes, tem dificuldade de entendê-los depois. Isso é um relato do jeito como ela escreve. De onde sairia a obrigação de todo bilhete ser conciso? O texto não estabelece essa regra.
✕ D) questiona a prática da escrita de próprio punho.
Observe o que os bilhetes fazem na rotina: eles continuam servindo para conversar com outras pessoas e lembrar tarefas. Esses usos não sustentam uma contestação da escrita à mão. A opção acrescenta um questionamento que os exemplos não apresentam.
✓ E) apresenta a diversidade de usos no cotidiano.
Essa reúne os exemplos que acabamos de localizar: recados para os moradores da casa e lembretes para a própria autora. O bilhete aparece com destinatários e funções diferentes. A opção corresponde à diversidade de usos apresentada no cotidiano.
🏁 Passo 6 — Leve o raciocínio para a prova
Gabarito letra E. A autora apresenta diferentes usos do bilhete: comunicar algo a quem mora com ela e organizar as próprias tarefas.
Leve esse cuidado para a próxima questão: comece pelo que o comando pede, volte ao trecho e confira a afirmação inteira da alternativa. Na letra B, a palavra ansiedade estava no texto, mas a causa atribuída a ela era outra. É essa relação que precisamos checar antes de marcar.
Erro comum: Reconhecer uma palavra presente no texto e aceitar toda a alternativa sem conferir a relação que ela estabelece.
Como evitar: Pergunte: o texto afirma isso por esse motivo? Depois volte à passagem e confira a causa, a função ou a comparação pedida.
