Mapa de questões · 1º dia
LinguagensEnem 2025

Questão 9 — ENEM 2025Caderno azul · 1º Dia

De próprio punho

A escrita e suas tecnologias sofrem interessantes metamorfoses, numa ciranda que vai do simples bilhete aos originais de um livro

Ana Elisa Ribeiro

Estranhei muito na primeira vez que escutei a expressão “de próprio punho”. Parecia que eu ia bater em alguém. Não era bem o caso. Foi numa situação bancária, dessas bem burocráticas, e eu devia escrever algo bem breve, mas com minhas mãos. Na verdade, o que importava era a autenticidade da minha caligrafia, que à época ainda era mais fluente e firme. Depois dos teclados de computador, ela rateia bastante. Minha letra, hoje, tem uma espécie de alternância: dia sim, dia não, trêmula e firme, forte e fraca, mais rotunda e mais cheia de arestas.

É claro que já escrevi muito mais de próprio punho ou, numa palavra mais bonita, manuscrevi (prefiro a mão ao punho, embora ele também seja usado na tarefa). Mas isso não é um feito individual. Em larga medida, é social. Muita gente sente o mesmo que eu, isto é, escreve bem menos usando as mãos, ou melhor, empregando algum tipo de tecnologia (lápis, caneta etc.) para escrever com grafite ou tinta ou giz ou carvão ou sangue e o que mais. É importante lembrar que ainda há gente que não sabe escrever neste país, neste planeta, mas muita gente sabe e tem um combo de tecnologias mais ou menos à disposição para isso. Sou dessas pessoas privilegiadas que têm várias possibilidades, e uma delas nunca deixou de ser o uso das minhas mãos. Ainda hoje, são elas que batucam meu teclado de computador ou que tocam suavemente duas ou três telas sensíveis. Mas não expressam mais a minha letra. No lugar, aparecem Times New Roman, Arial, Calibri e mais uma centena de “letras” à minha escolha. Eu e Deus e o mundo.

A despeito desse rol de chances e ferramentas para escrever, o manuscrito nunca deixou de pintar aqui e ali, muitas vezes como obrigação. Na escola, por exemplo, até hoje ele é soberano. No Enem também. Curioso, não? Fico pensando em que espaços e ocasiões ainda uso minha letra. Olhando ao redor, na minha casa, minha letra está em espaços muito delimitados e específicos: bilhetes. Eles estão principalmente na cozinha, em especial na porta da geladeira, a fim de manter a comunicação com meus coabitantes, sempre muito esquecidos ou relapsos. Mas também há bilhetes em post its na minha mesa do escritório, textinhos em garranchos por meio dos quais me comunico comigo mesma, a evitar um comportamento esquecido e relapso.

No escritório, costumo ser mais suave comigo mesma, mas também muito mais lacônica, a ponto de nem eu me entender, se passar o tempo. Em todos os casos vai minha letra, menos e mais redonda, a lápis e a tinta azul, em post its rosa-choque, colados precariamente, e todos com destino à lixeira, em breve. Justo porque eles funcionam como lembretes de tarefas e coisas que devem ser vencidas e, claro, substituídas por outras, num fluxo infinito, às vezes ansiogênico, com que a maioria dos adultos (e mais ainda as adultas) precisa conviver.

As formas de escrever mudam, as necessidades também, e o resultado é um elenco complexo, em que nada dispensa nada, a depender da tarefa ou da importância das coisas ou de suas funções, claro. A escrita e suas tecnologias incríveis vão se reposicionando, mudando de status, numa ciranda interessante e importante que pode ser vista à luz de certa diversidade que encontra suas oportunidades e seus efeitos, aqui e ali. Não adianta muito pensar sempre como se tudo fosse excludente. Estão aí minha farta comunicação por bilhetes, minha gaveta alegre de post its de toda cor, esperando para serem usados, e o cheque do cartório, em que quase tudo já é digital. “Do punho ao pixel” não é uma frase filosoficamente correta. O negócio é mais “o punho e o pixel”.

RIBEIRO, A. E. Disponível em: https://rascunho.com.br. Acesso em: 16 jan. 2024 (adaptado).

Questão 09

A autora conclui que as novas tecnologias de escrita

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Gabarito oficial: C

Alternativa C. A escrita digital convive com práticas já estabelecidas, como os bilhetes manuscritos; o uso de cada recurso depende de sua função.

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📋 Ficha da questão

  • Área: Linguagens, Códigos e suas Tecnologias.
  • Conteúdo: Interpretação de texto: conclusão e coexistência das tecnologias de escrita.
  • Prova: Enem 2025, aplicação regular, 1º dia.
  • Identificação: questão 9, caderno 1 azul, página 7; texto-base na página 6.

🔎 Passo 1 — Leia o comando

Galerinha, o comando já indica o caminho: ele pergunta o que a autora conclui sobre as novas tecnologias de escrita. Vamos procurar a ideia que fecha o raciocínio da crônica.

Observe o recorte: a questão pede a conclusão da autora. A opção precisa recuperar essa posição, com base no que foi discutido ao longo do texto.

📚 Passo 2 — Revise o conceito

A conclusão reúne o que os exemplos ajudam a demonstrar. Nesta crônica, a autora apresenta várias formas de escrever e chega a uma posição sobre a relação entre elas.

Coexistir é continuar existindo ao lado de outra coisa. Uma tecnologia nova pode ser incorporada à rotina enquanto recursos anteriores continuam sendo usados, conforme a tarefa e a função de cada um.

🧭 Passo 3 — Encontre as pistas

Bora voltar ao último parágrafo. A autora afirma que as formas de escrita se reorganizam de acordo com as tarefas e mantém, na sua rotina, tanto recursos digitais quanto bilhetes feitos à mão.

O fecho junta o punho e o pixel. O que essa combinação mostra? Que a escrita manual continua em uso junto com a digital. Os exemplos anteriores dos bilhetes, do teclado e das telas dão sustentação a essa conclusão.

🧠 Passo 4 — Resolva passo a passo

1. Localize a posição que encerra o texto

No último parágrafo, a autora retoma a variedade de formas de escrever e explica que seus usos dependem das funções e das necessidades. Esse é o trecho que precisamos relacionar ao comando.

2. Relacione o fecho aos exemplos

As novas possibilidades de escrita fazem parte da vida da autora, mas os bilhetes manuscritos também permanecem. Há diferentes meios atendendo a diferentes situações na mesma rotina.

3. Confira qual alternativa preserva essa relação

A opção adequada precisa mostrar a convivência entre as formas de escrita. Afirmações sobre facilidade, velocidade ou origem de tecnologias podem parecer razoáveis em outros contextos; aqui, precisam corresponder à conclusão efetivamente defendida.

✅ Passo 5 — Analise as alternativas

Vamos conferir o que cada opção afirma e se isso responde ao comando. A presença de uma ideia no texto precisa ser analisada junto com a função que a pergunta destacou.

✕ A) evoluem para facilitar a vida cotidiana.

A ideia de facilitar o cotidiano não recupera o ponto que a autora destaca no fecho. Ela explica como diferentes formas de escrita permanecem em uso, com funções próprias. A alternativa atribui uma finalidade à evolução tecnológica, enquanto o comando pede a conclusão dessa discussão sobre os meios de escrever.

✕ B) alcançam diferentes realidades sociais.

O texto menciona diferenças no acesso à escrita e aos recursos disponíveis. Esse assunto aparece no desenvolvimento, mas a conclusão se concentra na convivência dos meios e na escolha de cada um conforme a tarefa. A opção desloca o foco para o alcance social das tecnologias.

✓ C) coexistem com outras já estabelecidas.

Essa reúne o que os exemplos e o último parágrafo demonstram: o uso de recursos digitais convive com os bilhetes e com outras práticas manuscritas. As tecnologias novas passam a existir ao lado das já estabelecidas. É a relação de coexistência defendida pela autora.

✕ D) promovem maior agilidade na comunicação.

A conclusão não compara a velocidade das formas de comunicação. Ela trata da permanência e da reorganização de diferentes recursos de escrita. Mesmo que você associe o digital à rapidez, essa associação não responde ao que a autora conclui na crônica.

✕ E) surgem nos contextos em que são necessárias.

Observe a diferença entre surgir e ser usado. O texto explica que as formas de escrita são utilizadas de acordo com tarefas e funções. Isso não demonstra que cada tecnologia tenha surgido no contexto em que era necessária. A opção faz uma afirmação sobre a origem dos recursos, em vez de recuperar a convivência entre eles.

🏁 Passo 6 — Leve o raciocínio para a prova

Gabarito letra C. As novas tecnologias de escrita coexistem com as que já estavam presentes. O fecho da crônica reúne a escrita manual e a digital, e os exemplos mostram essa convivência na prática.

Quando a questão pedir a conclusão do autor, procure a afirmação que fecha o raciocínio e veja como ela se liga aos exemplos. Depois confira se a alternativa apresenta essa posição, em vez de uma ideia que você trouxe de fora do texto.

Erro comum: marcar uma afirmação plausível sobre tecnologia sem conferir se ela corresponde à conclusão da autora.

Como evitar: pergunte qual relação o fecho estabelece entre os elementos discutidos e volte aos exemplos que sustentam essa relação.

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